*Sou*

Nick:Estrelinha
Niver:03/01/55
Vivo em: Curitiba
Gosto: Ler,natureza...
Não gosto : Acordar cedo,fofoca
Meu Eu +: Tolerante e carinhosa
Meu Eu -: Orgulhosa...
Admiro: Jesus,Gandhi,S.Francisco
Frase: .*.Que seja eterno enquanto dure.*.



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Sexta-feira, Setembro 29, 2006


*Traduzir para o Inglês*



Quarto de Badulaques XXXVIII

Sociedades se constroem quando os homens concordam sobre coisas grandes. A amizade acontece quando os homens concordam sobre coisas pequenas. Faz tempo escrevi um artigo longo sobre um tema que esqueci. O dito artigo provocou, num dos meus leitores do sul de Minas, um carta. Escreveu-me não para comentar o artigo ¿ irrelevante ¿ mas para dizer que ficara comovido porque, num certo lugar, eu falara sobre ¿o cheiro bom do capim gordura¿.

A partir dessa imagem a um tempo visual e nasal - pois havia a visão do campo de capim gordura e o cheiro do capim gordura - ele se pôs a descrever sua experiência diária: passava, de manhãzinha, sol ainda não nascido, por um campo coberto de capim gordura. ¿ O silêncio verde dos campos...¿ E havia a névoa misteriosa que tudo envolvia. De vez em quando, o barulhinho de algum regato que corria invisível, coberto pela vegetação.. E, saindo dele, como se fosse sua respiração, seu mais profundo segredo, o perfume. Mistério.

Mistério, essa palavra misteriosa. Em inglês a palavra mistério se escreve ¿mystery¿. Pois um dia, por inspiração imediata, passei a escrevê-la de uma forma diferente: misteerie. ¿Mist¿ é neblina. ¿eerie¿ quer dizer assombroso, que provoca medo. Acho que minha grafia, inspirada na poesia, é melhor que a grafia do dicionário, derivada da etimologia. Essa é a minha contribuição para a língua inglesa. É isso que se sente de manhãzinha, sozinho, ao caminhar pelos campos de capim gordura. Não há igreja, templo ou santuário que se lhe compare. Essas caixas de tijolo e cimento que os empresários da religião constroem para engaiolar o sagrado, na maior parte das vezes provocam-me o sentimento oposto, de horror estético. Deus deve ter muito mau gosto...

Pois é: quando li aquela carta imediatamente me descobri amigo daquele homem distante. Se não me equivoco o seu nome era Gerson, e vive em Poços de Caldas. Sempre que vejo capim gordura me lembro dele. De todo o palavrório que escrevi naquele artigo, o que sobrou, o que valeu, foi uma imagem imobilizada num momento eterno: o capim gordura, com o seu cheiro bom... (Desgraça: os criadores de gado, para terem mais lucro, acabaram com o capim gordura e o substituíram por uma praga africana chamada braquiária, que é um câncer nos pastos que nem a quimioterapia mais violenta pode com ele... ).

Como aconteceu com o Pequeno Príncipe e a raposa. O Pequeno Príncipe, contra vontade, cativara a raposa, a pedido dela. Mas chegou a hora da despedida e a raposa disse: ¿Vou chorar¿. O Pequeno Príncipe retrucou: ¿ Não é culpa minha. Eu não queria te cativar. Agora você vai chorar. Qual foi a vantagem?¿ Respondeu a raposa: ¿A vantagem? Os campos de trigo. Eu sou uma raposa. Como galinhas. O trigo me é indiferente. Mas você me cativou. Seu cabelo é louro. Os campos de trigo são dourados. Porque você me cativou sempre que o vento balançar as espigas douradas de trigo eu me lembrarei de você. E sorrirei...¿

É isso que é um sacramento: uma imagem carregada de emoções. O sacramentos são símbolos que têm o poder de invocar ausências. Poesia é isso: imagens carregadas de emoções... Quem não tem poesia é pobre nas emoções. E, necessariamente, pobre no amor. Escrevi uma crônica em elogio à calvície. Eu nunca imaginei que uma calva fosse um objeto poético. Nunca li poema algum sobre a calvície... Só se fosse um poema cômico, de fazer rir. Foi isso que aconteceu com a coleguinha da minha neta que caiu na risada ao ver-me careca, numa foto?.

Pois o Artur da Távola me enviou um e-mail... Já escrevi sobre ele várias vezes. Ele apresenta o programa ¿Quem tem medo de música clássica?¿ na TV Senado e não se cansa de repetir: ¿Música é vida interior. E quem tem vida interior nunca está sozinho.¿ Emociona-me seu amor pelas crianças. Está sempre pedindo aos pais que chamem os seus filhos para ver e ouvir música clássica. Uma amiga, separada, segredou a outra amiga que nunca mais se casaria, a não ser que fosse com o Artur da Távola...

Ele me enviou um e-mail a propósito da minha crônica e fez uma confissão que me comoveu. Achei tão humana a sua confissão que lhe pedi licença para transcrevê-la. ¿Quando eu era criança, anos 40, não estava em moda usar barba. Meu pai, exceção, mantinha uma, a nazareno, como se chamava então. Tímido que sempre fui, morria de encabulamento. Uma tarde ele é que foi buscar-me no colégio. A garotada riu daquele homem de barba e eu, assustado, disse que era meu avô. Minha mãe, à noite achou a desculpa criativa. Mas meu pai ficou triste por rirem dele e por me haver causado o envergonhar-me. Até hoje essa mentirinha me persegue. Ele morreu quando eu tinha onze anos e nunca pude excusar-me com ele. Aceite o abraço de outro vasto careca e parabéns pela defesa.¿

Parece que isso é algo universal. As crianças têm medo que os outros riam dos seus pais e, consequentemente, riam deles. Todas as crianças querem ter pais bonitos e admirados. Lembro-me de que quando vivi nos Estados Unidos o diretor da ¿Cathedral School¿, onde meus filhos pequenos estudavam, convidou-me a falar para as crianças. Aceitei. Anunciou-se minha ida. Aí notei que o Sérgio e o Marcos começaram a ter um comportamento incomum, cheios de conversinhas pelos cantos. Até que eu os encantoei e pedi explicações. Aí eles me disseram, meio encabulados: ¿Please, Daddy, don¿t say anything which will embarrass us...¿ que, traduzido livremente em linguagem de hoje seria, ¿Papai, não nos faça pagar mico...¿

Quem suspeitaria que o cheiro bom do capim gordura pudesse ser um sacramento de amizade? Quem suspeitaria que uma careca poderia ser um tema poético, início de uma amizade? Gostava do Artur da Távola pela música. Gostava pelo amor às crianças. Agora gosto mais, porque a careca nos faz entrar em devaneios. Como disse, a amizade cresce a partir de coisas pequenas. Quem suspeitaria que das carecas pudesse surgir a amizade? Garanto, Artur, que o seu pai ficou feliz por sua revelação afetuosa. Não precisa mais sentir-se perseguido pela mentirinha...

. Estamos lendo e discutindo, nas sessões de poesia às 3as. feiras, o livro Livro sem fim, que escrevi. Chama-se livro sem fim porque não consegui terminá-lo. Fiquei cansado no meio do caminho. Parei e disse aos meus leitores: ¿Lamento muito mas fico por aqui. Não vou subir até o alto do pico. Deixei lá na planície um jardim que precisa dos meus cuidados. Mas vou lhes indicar as trilhas que eu havia planejado seguir. Dou-lhes a rota que iria seguir. Sigam por conta própria, se o desejarem.¿

E publiquei um livro que não terminei, sem fim. Não me apoquento porque Schubert não conseguiu terminar uma de suas sinfonias e Bach não chegou ao fim da ¿Arte de Fuga¿. Pois é, estamos começando a escalada e estávamos numa parte que fala de aforismos. Nietzsche tinha paixão por eles:¿ Quem quer que escreva com sangue e aforismos não deseja ser lido mas ser sabido de cor. Nas montanhas o caminho mais curto é de pico a pico: mas, para isso, é preciso ter pernas longas. Aforismos deveriam ser picos ¿ e aqueles a quem são dirigidos também deveriam ser altos e elevados.

O ar é puro, o perigo está próximo e o espírito está cheio de um sarcasmo jovial: esses dois vão bem, juntos...¿ Aforismos são relâmpagos: caem do céu com um estampido e racham pedras. Suas origens são irrelevantes. Dispensam razões. Se riem dos que tentam explicá-los. Valem por eles mesmos, como se fosse estrelas. ¿Um bom aforismo não é consumido pelos milênios, muito embora ele seja alimento a cada momento: esse é o grande paradoxo da literatura, o permanente no meio das mudanças, a comida que permanece sempre gostosa, como sal, ela não perde o sabor... ¿

Aí, para ilustrar, pus-me a ler alguns das centenas de aforismos que Oscar Wilde escreveu. Esse, em especial, de aparência inocente, produziu uma infinidade de faíscas. ¿É triste mas é verdade: perdemos a capacidade de dar nomes suaves às coisas. Os nomes são tudo. Eu nunca me queixo das coisas. Queixo-me das palavras. É por este motivo que odeio o vulgar naturalismo na literatura. O homem que chama a enxada de enxada deveria ser forçado a usá-la. É a única coisa que ele sabe fazer.¿

Lido o aforismo há um momento de silêncio. É preciso pensar, observar o que o aforismo faz conosco, que associações ele provoca. Aí o pensamento da Lenir deu um pulo. Lembrou-se de algo que o Guido lhe dissera, rindo: ¿O fim de uma possível noite de amor acontece quando a mulher diz ao namorado: Dá licença, benzinho, preciso mijar...¿ Ah! Palavra terrível essa! Destruidora de romances! Tudo teria sido diferente se ela tivesse dito: ¿Benzinho, licença, preciso fazer um xixizinho...¿ Xixizinho, que bonitinho, poético, as menininhas fazem xixizinho, a fantasia da mulher amada fazendo xixizinho, tão íntimo, tão excitante...¿

Mas alto lá! O dicionário diz que fazer xixi, mijar e urinar são sinônimos. Se são sinônimos referem-se à mesma coisa. São nada. As coisas são os nomes que pomos nelas. Por isso que Oscar Wilde disse que não se queixava das coisas. Queixava-se dos nomes. É preciso dar nomes suaves às coisas para que elas, as coisas, fiquem suaves. Urinar não é um nome suave para a dita coisa. Urinar era aquilo que se fazia no penico, com todos os seus ruidos metálico-espumantes.


Lembro-me, em Minas, eu tinha uns 7 anos. Estavam hospedados em nossa casa o Sigismundo e a Leonina. Haviam vindo da roça para consultas médicas. Fazia parte das gentilezas da hospitalidade que os hóspedes fossem providos de penicos. Pois estou vendo a cena: a Leonina, saindo do quarto pela manhã portando, um penico cheio do líquido amarelo, e explicando a todos: ¿ O Sigismundo urinou muito de noite...¿ Urinar é também aquilo que se faz no laboratório de análises. ¿Despreze o primeiro jato da urina¿, diz a enfermeira.

A palavra mijar, por sua vez, é moradora dos mictórios ou, como dizem os portugueses, dos urinois. Xixi, como a palavra está onomatopaicamente indicando, é parente dos sons musicais dos violinos. Quem faz xixi está tocando violino. Aprendam então a usar a palavra certa. Sinônimos não dão certo. Muitas promissoras relações amorosas acabam por causa de um nome aparentemente inocente. Cuidado com os nomes!

(Rubem Alves )

Rabiscado por *Estrelinha *Comentaram:

Segunda-feira, Setembro 18, 2006


*Traduzir para o Inglês*



Se eu tiver apenas um ano a mais de vida...

Faz cinco anos que um grupo de amigos se reúne comigo para ler poesia. Para que ler poesia? Para a gente ficar mais tranquilo e mais bonito. Mas não me entendam mal. Já observaram os urubus - como eles voam em meio à ventania? Eles nem batem as asas. Apenas deixam-se levar, flutuam. Esse jeito de ser chama-se sabedoria. A poesia nos torna mais sábios, retirando-nos do torvelinho agitado com que a confusão da vida nos perturba. Drummond, escrevendo sobre a Cecília Meireles, disse: "Não me parecia criatura inquestionavelmente real; por mais que aferisse os traços de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos. Por onde erraria a verdadeira Cecília, que, respondendo à indagação de um curioso, admitiu ser seu principal defeito 'uma certa ausência do mundo'? Do mundo como teatro, em que cada espectador se sente impelido a tomar parte frenética no espetáculo, sim; mas não, porém, do mundo das essências, em que a vida é mais intensa porque se desenvolve em um estado puro, sem atritos, liberta das contradições da existência".

Pois é isso que a poesia faz: ela nos convida a andar pelos caminhos da nossa própria verdade, os caminhos onde mora o essencial. Se as pessoas soubessem ler poesia é certo que os terapeutas teriam menos trabalho e talvez suas terapias se transformassem em concertos de poesia!

Pois aconteceu que, numa dessas reuniões, quando líamos trechos da Agenda 2001 - Carpe Diem, encontramos, no dia 2 de fevereiro, essa afirmação de Gandhi: "Eu nunca acreditei que a sobrevivência fosse um valor último. A vida, para ser bela, deve estar cercada de vontade, de bondade e de liberdade. Essas são coisas pelas quais vale a pena morrer." Essas palavras provocaram um silêncio meditativo, até que um dos membros do grupo, que se chama "Canoeiros", sugeriu que fizéssemos um exercício espiritual. Um joguinho de "faz-de-conta". Vamos fazer de conta de sabemos que temos apenas um ano mais de vida. Como é que viveremos, sabendo que o tempo é curto, "tempus fugit"?

A consciência da morte nos dá uma maravilhosa lucidez. D. Juan, o bruxo do livro "Viagem a Ixtlan", advertia o seu discípulo: "Essa bem pode ser a sua última batalha sobre a terra". Sim, bem pode ser. Somente os tolos pensam de outra forma. E se ela pode ser a última batalha, ela deve ser uma batalha que valha a pena. E, com isso, nos libertamos de uma infinidade de coisas tolas e mesquinha que permitimos se aninhem em nossos pensamentos e coração. Resta então a pergunta: "O que é o essencial?" Um conhecido meu, místico e teólogo da Igreja Ortodoxa Russa (seu livro - maravilhoso - "Para a vida do mundo", está sendo traduzido e em breve será publicado pela Paulus), ao saber que tinha um câncer no cérebro e que lhe restavam não mais que seis meses de vida, chegou à sua esposa e lhe disse: "Inicia-se aqui a liturgia final". E, com isso, começou uma vida nova. As etiquetas sociais não mais faziam sentido. Passou a receber somente as pessoas que desejava receber, os amigos, com quem podia compartilhar seus sentimentos. Eliot se refere a um tempo em que ficamos livres da compulsão prática - fazer, fazer, fazer. Não havia mais nada a fazer. Era hora de se entregar inteiramente ao deleite da vida: ver os cenários que ele amava, ouvir as músicas que lhe davam prazer, ler os textos antigos que o haviam alimentado.

O fato é que, sem que o saibamos, todos nós estamos enfermos de morte e é preciso viver a vida com sabedoria para que ela, a vida, não seja estragada pela loucura que nos cerca.

Lembrei-me das palavras de Walt Whitman: "Quem anda duzentos metros sem vontade/ anda seguindo o próprio funera / vestindo a própria mortalha..." Pensei então nas minhas longas caminhadas pelo meu próprio funeral, fazendo aquilo que não desejo fazer, fazendo porque outros desejam que eu faça. "Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim" - Álvaro de Campos. Sou esse intervalo, esse vazio - de um lado o meu desejo (onde foi que o perdi?); do outro lado o desejo dos outros que esperam coisas de mim. Não, não são os inimigos que me impõem o intervalo. Inimigos - não lhes dou a menor importância. Os desejos que me pegam são os desejos das pessoas que amo - anzóis na carne. Como tenho raiva do Antoine de Saint Exupéri - "tornamo-nos eternamente responsáveis por aqueles que cativamos..." Mas isso não é terrível? Ser reponsável por tanta gente? Cristo, por amar demais, terminou na cruz. Embora não saibamos, o amor também mata.

Então, abandonar o amor? Não. Mas é preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo para tudo. Não poderei escutar todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de "abrir mão" - a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial.

Aí eu comecei a pensar nas coisas que amo e que abandonei - vejam só: nesse preciso momento me dei conta de que, por causa dessa crônica não liguei a fonte que faz um barulhinho de água e nem pus nenhuma música no meu tocador de CDs, a pressa era demais, a obrigação era mais forte. Tudo bem agora, a fonte faz o seu barulhinho e o Arthur Moreira Lima toca minha sonata favorita de Mozart, em lá maior KV 331 - coisas que amo e abandonei. Eu, mau leitor de poesia! Poesia lida e não vivida! Não levei a sério o dito pelo Fernando Pessoa: "Ai, que prazer não cumprir um dever. Ter um livro para ler e não o fazer! Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças..."

Sempre fui louco por jardins. Uns acham que eu não acredito em Deus. Como não acreditar em Deus se há jardins? Um jardim é a face visível de Deus. E essa face me basta. Não tenho necessidade de ir olhar atrás das estrelas... Escrevi inúmeros textos sobre jardins. Num jardim estou no paraíso. Mas, que foi que fiz com o meu jardim? Abandonei. A caixa das abelhinhas apodreceu, caiu a tampa e eu não fiz nada. Cresceu o mato eu eu não fiz nada. Da fonte tirei os peixes, coitados... De lugar de prazer, onde se assentar em abençoada vadiação contemplativa, meu jardim virou um lugar de passagem. Abandonei o meu amigo, por causa do dever. Para o inferno com o dever! Vou mesmo é cuidar do meu jardim. Por prazer meu. E pela alegria das minhas netas. Vou reformar a fonte, vou fazer um balanço (que os paulistas insistem em chamar de balança...), vou reformar o gramado, vou refazer a casa das abelhinhas, vou fazer uma cobertura para as orquídeas. E mais, vou fazer uma "casinha de bruxa", cheia de brinquedos, para as minhas netas, a Mariana, a Camila, a Ana Carolina, a Rafaela e a Bruna... Quero brincar com elas. Breve elas terão crescido e não mais terei netas com quem brincar. "Mas o melhor do mundo são as crianças..."

Vou voltar a tocar piano - coisas fáceis: a "Fantasia", de Mozart, a "Träumerai", de Schumann, o Improviso op. 90. n. 4 de Schubert, o prelúdio da "Gota dágua", de Chopin, alguns adágios de sonatas de Beethoven.

Quero ouvir música: aquelas que fazem parte da minha alma. Pois a alma, no seu lugar mais fundo, está cheia de música. E, sem precisar me desculpar pelo meu gosto, digo que amo música erudita. Música erudita é aquela que nos faz comungar com a eternidade. As outras, são bonitas e gostosas - mas são coisa do tempo.

Quero reler livros que já li. Vou relê-los porque é sempre uma alegria caminhar por caminhos conhecidos e esquecidos. É como se fosse pela primeira vez.

Não quero novidades. Não vou comprar apartamentos ou terrenos. Não quero viajar por lugares que desconheço. Eliot: "E ao final de nossas longas explorações chegaremos finalmente ao lugar de onde partimos e o conheceremos então pela primeira vez..." É isso. Voltar às minhas origens, às coisas de Minas que tanto amo, a cozinha, os jardins de trevo, malva, romãs e manacás, as montanhas, os riachinhos, as caminhadas...

Há coisas que só poderei gozar em solidão. Ninguém é obrigado a gostar das músicas que amo. Entrando no seu mundo, gozarei de abençoada solidão. Lugar bom para se ouvir música assim é guiando o carro, sozinho, sem precisar conversar.

Mas quero meus amigos. Não do jeito do Roberto Carlos que queria ter um milhão de amigos. Não é possível ter um milhão de amigos. Quero meus poucos amigos. Amigos: pessoas em cuja presença não é preciso falar...

Estou tentando, estou começando. Espero que consiga...


(Rubem Alves)


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